Foto: Vitória Sarturi (Diário)
Estátua de Paulo Neron Rodrigues, popularmente conhecido como Paulinho Bilheteiro
Às margens da RSC-287, na Faixa Nova de Camobi, em Santa Maria, uma estátua em tamanho real mantém viva a memória de Paulo Neron Rodrigues, o Paulinho Bilheteiro. Sentado em um banco, com expressão serena e olhar atento, ele reaparece em forma de escultura, recriado nos detalhes que marcaram sua presença pelas ruas da cidade. No último sábado (28), quando completou 13 anos de sua morte, a obra resiste como um dos poucos registros materiais de um personagem que, por mais de cinco décadas, fez do centro de Santa Maria o seu lugar.
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Criada em 2021, a estátua está hoje instalada no estabelecimento comercial de seu idealizador, o administrador e artista, Carlinhos José Bortoluzzi, de 76 anos. Mais do que uma homenagem, a obra é uma tentativa de manter viva a memória de Paulinho – e, ao mesmo tempo, evidencia o distanciamento entre o reconhecimento simbólico e o espaço que a cidade efetivamente reserva a ele.
Os detalhes da escultura chamam atenção pela fidelidade. O corpo pequeno, a postura tranquila e, principalmente, a maleta de couro preto apoiada ao lado – semelhante à que ele carregava pelas ruas vendendo bilhetes – ajudam a reconstruir a figura que tantos santa-marienses conheceram. A vestimenta também reforça essa identificação: camisa verde, calça escura e sapatos pretos, composição simples que remete ao modo como ele costumava circular pelo centro da cidade.
Produzida com estrutura de ferro e revestida em concreto, a peça já revela os efeitos do tempo: rachaduras discretas, pintura desgastada e marcas da exposição constante ao clima. Ao redor, o cenário reforça a sensação de abandono. A vegetação cresce de forma irregular, avançando sobre o espaço onde a estátua permanece.
Uma estátua entre o reconhecimento e o esquecimento
Hoje distante do centro, a obra recebe visitas pontuais, geralmente de quem ainda guarda lembranças afetivas de Paulinho. Não há placas, nem indicação oficial. Apenas o banco, o corpo moldado e o silêncio.
A escultura nasceu de uma inquietação do seu criador: a ausência de um símbolo físico que representasse alguém tão presente na memória coletiva da cidade.
– Todo mundo fala que Santa Maria deveria ter uma estátua do Paulinho. Mas quando chega a hora de assumir e dizer ‘vamos colocar’, ninguém quer tomar a responsabilidade – afirma Carlinhos.
Autodidata, Carlinhos levou cerca de seis meses entre pausas e retomadas até concluir a obra. Mais do que um projeto artístico, ele descreve o processo como um desafio pessoal – uma prova de até onde seria capaz de ir.
A passagem pela Feira do Livro
A estátua chegou a ocupar um espaço mais central – ainda que por pouco tempo. Durante a 49° Feira do Livro, em 2022, foi exposta na Praça Saldanha Marinho, onde rapidamente chamou a atenção do público. Fotografias, registros e curiosidade cercaram a figura que, para muitos, parecia reviver no meio da cidade.

Segundo Carlinhos, a autorização veio com prazo definido: ao fim do evento, a escultura deveria ser retirada. O próprio autor arcou com transporte, instalação e retirada da peça.
– Quando terminou a feira, eu tive que tirar. Tudo por minha conta. E aí veio a pergunta: onde colocar? Acabei trazendo para cá [seu estabelecimento comercial] – relata.
O que diz a prefeitura
A Prefeitura, por meio da Secretaria de Cultura, informou ao Diário que, na época, não era viável manter a estátua na praça Saldanha Marinho devido ao início das obras de reforma no local. Ainda conforme a pasta, após o evento, não houve novo contato por parte do idealizador. A secretaria afirma, no entanto, que reconhece a relevância simbólica de Paulinho e se coloca aberta ao diálogo para uma possível instalação em espaço público.
Quem foi Paulinho Bilheteiro
Antes de ser eternizado em uma estátua, Paulinho Bilheteiro era presença em movimento pelas ruas de Santa Maria. De baixa estatura e sempre com a maleta quase do tamanho do próprio corpo, cruzava o centro diariamente vendendo bilhetes da Loteria Federal e cultivando uma rotina que misturava trabalho e convivência. Mais do que vendedor, era figura marcante – dessas que se impõem pela constância e pelo vínculo com as pessoas. Segundo registros da Casa de Memória Edmundo Cardoso, Paulinho é considerado o mais antigo bilheteiro de rua da Caixa Econômica Federal no Brasil.
A professora aposentada Therezinha de Jesus, de 85 anos, conheceu Paulinho ainda na infância, quando ambos viviam em regiões vizinhas da cidade. A proximidade territorial fez com que o nome e a figura de Paulinho fossem familiares desde cedo.

– Todo mundo conhecia o Paulinho daquela época. Ele ficava perto do campinho, assistindo futebol. Era uma figura muito presente, desde sempre – relembra.
Com o passar dos anos, o contato se tornou mais frequente. Já adulta e casada com o teatrólogo, jornalista e escritor santa-mariense Edmundo Cardoso, Therezinha voltou a encontrar Paulinho no centro da cidade – e foi reconhecida por ele de imediato, assim como toda a sua família. Segundo ela, essa era uma característica marcante: Paulinho cultivava uma memória afetiva das pessoas, criava vínculos e circulava com naturalidade entre diferentes grupos.
Ao Diário, Therezinha o descreveu como sendo “uma pessoa de calçadão”. Circulava entre a escadaria do antigo banco, bares e ruas movimentadas, sempre conversando. Não se limitava a um ponto fixo: andava por toda a cidade, visitava clientes e levava bilhetes até a casa de quem não podia sair.
– Ele se dava com todo mundo. Não ficava isolado. Estava sempre no meio das pessoas, conversando. Era muito sociável – conta.
Teatro
Além das ruas, Paulinho também construiu uma trajetória expressiva no teatro. Entre 1950 e 1983, integrou a escola de teatro de Edmundo Cardoso, em Santa Maria, participando de diversas montagens – especialmente voltadas ao público infantil. Em cena, conquistava principalmente as crianças, que passaram a reconhecê-lo também fora dos palcos, ampliando ainda mais sua popularidade na cidade.
Ele esteve na primeira peça de comédia infantil encenada em Santa Maria, em 1959, e, a partir daí, participou de todas as produções do gênero realizadas pela Escola de Teatro Leopoldo Fróes. Entre elas, O Casaco Encantado, de Lúcia Benedetti, marco inicial de uma trajetória que uniu arte, carisma e proximidade com o público.

– Quando ele começou no teatro, a gurizada ficou encantada. Ele virou uma figura muito querida, muito aplaudida – diz Therezinha.
Apesar da rotina simples, Paulinho construiu uma vida com autonomia e adquiriu um apartamento no município, mantendo uma rede próxima de relações. Gostava especialmente de celebrar os aniversários, quando reunia amigos e familiares em casa, com salgadinhos, doces e cerveja – sua bebida preferida.
Entre amigos e conhecidos, fica a memória de um homem simples, mas profundamente cativante, que fez das relações humanas sua maior marca.

– Ele era muito querido no aspecto humano e em todos os sentidos. Paulinho era engraçado, não ficava dentro de casa escondido, ele saiu para o mundo e as pessoas gostavam de estar com ele – afirma Therezinha.
Além do Teatro e da função de bilheteiro, Paulinho também atuou como engraxate na cidade e chegou a ser "mascote" do Inter de Santa Maria, sendo conhecido por trazer sorte ao clube desde que começou a acompanhar as partidas, em 1959.
Últimos anos de vida
Mesmo com problemas de saúde nos últimos anos de vida, manteve sua rotina ativa pelo maior tempo possível. Trabalhar, para ele, também era uma forma de estar entre as pessoas – algo que parecia indispensável.

Paulinho morreu em 28 de março de 2013, aos 74 anos, no Hospital de Caridade, em decorrência de complicações de saúde. Não deixou filhos e não foi casado, mas permaneceu na memória coletiva de Santa Maria como um personagem singular – alguém que, entre bilhetes, conversas e caminhadas, construiu sua própria forma de pertencimento à cidade..
Hoje, sua presença resiste de diferentes maneiras: na estátua que tenta preservar sua imagem, em registros e homenagens, como o poema de Evandro Zamberlan, mas, sobretudo, na lembrança de quem cruzou seu caminho e guardou um gesto simples – um sorriso, uma conversa, um encontro cotidiano no coração da cidade.